terça-feira, 14 de outubro de 2008

Marketing

Peça de teatro organizada pelo grêmio do colégio.

A divulgação, bombástica, anuncia que o garoto mais popular (e lindo, e maravilhoso, e etc.) do colégio inteiro (e que já está no ensino médio, ais-ais-ais adolescentes...) vai atuar na tal peça, no papel central de uma figura mitológica, na qual ele teria que, obrigatoriamente, aparecer, (ais-ais-ais adolescentes)... SEM CAMISA. Além disso, ele iria cantar e tocar na peça.

Sucesso de público, óbvio. Todas as meninas pré-pré-adolescentes, que nem sonham ainda em chegar ao ensino médio, fazem fila no dia da peça para pegar um bom lugar (leia-se primeiríssima fila). Evento lotado.

Caem os panos. Cadê o garoto mais popular do colégio??? O papel central da tal figura mitológica está sendo interpretado por outro ator!!! (leia-se outro aluno nem um pouco popular ou bonito...) Cadê a figura? Nada, nada, nada... No final, aparece o popular, no meio de um bando de outros colegas sem expressão, tocando violão (mas não cantando) e, obviamente, vestindo uma camisa.

Marketing é tudo, né não?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Eu vou dar uma chinelada na barata dela!

Ensino médio. Hora do intervalo.

Eis que surge uma barata no meio do pátio. Alvoroço total.

- Mata aí! - Grita um dos rapazes para o outro que se encontra mais próximo do inseto.

- Mata, não! Mata, não! Chuta! - Retrucou outro já se posicionando tal qual um goleiro prestes a defender um pênalti.

Duas amigas conversam sentadas em um banco e logo gritam, estridentes, levantando os pés e sacudindo as mãos, com ares de nojo tipicamente femininos.

A barata é arremessada longe sem que o "goleiro" consiga alcançá-la e vai parar bem embaixo do banco onde se encontram as amigas.

Finda a novidade e com a barata longe das vistas de todos, os olhares se dispersam entre conversas, paqueras e o jogo de ping-pong.

As amigas, animadas, resolvem comprar um lanche. Ajeitam os cabelos, cochicham sobre o carinha da outra turma e levantam em direção à cantina. Atravessam o pátio rebolando, delicadamente, como convém à idade.

Ali, entre um passo e outro, agarrada à calça jeans de uma delas, pegando carona bem em cima das nádegas e bem à vista de todos encontra-se nada mais, nada menos, que a barata do pátio.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Pais precavidos

Conversa entre dois adolescentes durante as férias:

- Você acredita que a minha mãe fez um caderninho pra eu levar na minha excursão pra Disney com todas as coisas que eu tenho que fazer? Tipo: primeiro dia, fazer coisa tal; no banho, lavar a calcinha.... Pode?

- Pior foi meu pai. Quando eu viajei com a escola pra aquele acampamento, ele queria que eu levasse um MACHADO pra conseguir sair do ônibus caso houvesse uma emergência!

- Um machado?!?!?!?!

Risos e mais risos.

domingo, 21 de outubro de 2007

O Primeiro Beijo

- E aí, como foi?
Marina ouviu a pergunta, mas permaneceu em silêncio, ainda sob o efeito da novidade de sensações. Carol, que não conseguia se calar por um segundo, foi logo interrompendo sem esperar a resposta:
- Caraca, lembra quando eu perdi BV com o Rafa? Ele me babou toda. Foi horrível!
- Eca! - ouviu-se de todas, acompanhado de caretas retorcidas e seguido de risadas.
- Eu fiz uma listinha de todos os tipos de beijo que eu já experimentei. - Falou Luísa, sacudindo os cabelos longos com ar de experiente, ainda que apenas 1 ano mais velha do que as outras 4 meninas. - O João Pedro era babão também. A gente acabava de se beijar e eu tinha que limpar minha cara toda sem ele perceber pra não pegar mal.
Depois veio o Ricardo. Esse beijava direitinho, mas a língua dele parecia presa na boca. Ele quase não colocava ela pra fora. Eu que tinha que ficar catando a língua da criatura!
- É mesmo! É mesmo! - Exaltou-se Juliana. - Eu também beijei ele depois.
- Aí! Você sempre visou os restos da Luísa! - Provocou Carol diante das risadas de todas.
Marina fingia atenção.
- Nada a ver. - Retrucou Juliana. - Continua, Luísa.
- Tá. - Ajeitou o cabelo em um coque com a piranha que sempre trazia consigo e continuou:
- O Lucas era mais velho, cara. Eu jurava que ele ia arrasar no beijo. Mas o cara parecia um helicóptero. Ficava rodando a língua sem parar. Quase me deixou sem fôlego. A sorte dele é que ele é gato!
- Ô... Põe gato nisso! - Comentou Aline, que até então só havia se limitado a rir de tudo, corando suas bochechas sardentas.
- Continuando: depois veio o Renan. - Parou para fazer suspense - Não. O Renan foi muito esquisito! Eu classifiquei ele como lagarto ou cobra. Ainda estou decidindo o bicho que eu vou homenagear. Ele não rodava a língua como todo mundo. Ele simplesmente colocava a língua pra fora e pra dentro, pra fora e pra dentro. Uma hora a língua estava ali, na outra tinha sumido. Esquisitão.
Foi uma gargalhada geral. Carol chegou a deitar do chão de tanto rir e Aline ficou quase roxa. Só Marina permanecia calada.
- Gente, gente! - Gritou Juliana por cima do alvoroço que havia se instaurado - A Marina está ali quietinha e ainda não falou nada. Ela finalmente perdeu o BV. Fala logo. Como é que foi? O Pedro beija bem?
Marina endireitou-se, mexeu na franja, pigarreou.
- Foi bom. Acho que ele beija direitinho sim.
- Aê! Aleluia! Marina! Marina!
Já mais tarde. Sozinha em seu quarto. Marina deitou-se na cama e fechou os olhos. Tentou reconstruir cada passo daquele seu primeiro beijo.
Lembrou-se do nervosismo que sentira. Do aperto no estômago, uma espécie de dor-de-barriga... Dos olhos de Pedro fitando os seus e seu hálito quente se aproximando. Suas mãos suando frias e o coração batendo tão alto que ela teve medo de que ele pudesse ouvir.
Depois a boca úmida contra a sua e a indecisão que ela teve se devia abrir sua boca de imediato ou esperar que a língua dele lhe mostrasse a hora certa...
E ao final do beijo o sorriso meio sem-graça. O gritinho dos amigos dele à distância e ele jogando o cabelo para o lado, empinando-se como um macho vencedor na natureza.
Talvez daqui a alguns meses, ou até dias, ela pudesse relatar esse beijo de maneira mais fria, como haviam feito suas amigas. Talvez ela até experimentasse outros melhores e os classificasse, como fazia Luísa. Mas agora, naquele exato momento, ela só queria adormecer sob o brilho da lembrança dos olhos de Pedro e cobrir-se dos detalhes de seu primeiro beijo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Mulher Prevenida

Ontem, no trânsito, a caminho de casa, visualizei uma cena que me fez lembrar de uma amiga de Tica e Teca.

Tica e Teca, como vocês sabem, são muito amigas entre si, e têm amigas, como definir... estranhas!

Vani (vamos chamá-la assim), por exemplo, é moça muito prevenida. E perspicaz.

Tanto que resolveu o problema de estar no trânsito e subitamente ficar apertada para ir ao banheiro da seguinte maneira: agora só usa saias e carrega um personal penico no bagageiro. Se ficar apertada no meio de um engarrafamento, ela sai do carro, dirige-se ao bagageiro, de onde retira o personal penico, coloca-o no banco do motorista, senta, faz o que tem que fazer, retira o vasilhame e segue em frente.

Tal procedimento já a salvou em várias situações! É ou não é uma mulher previdente?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O hipocondríaco

Saiu do escritório e andou, apressadamente, em direção à esquina. Não sem antes entrar na farmácia e comprar mais uns comprimidos de tylenol. Sua dor de cabeça aumentava ao longo do dia, com tantos afazeres na repartição... Comprou, também, um antiinflamatório (sua coluna estava em frangalhos após tantas horas sobre o computador).
Acenou para o primeiro táxi que passava. Estava muito cansado e com o corpo dolorido para esperar pelo ônibus. Hoje ele iria se dar ao luxo de pagar um táxi até sua casa.
A viagem seguia seu curso normal. O veículo avançava alguns metros e parava, espremido entre as dezenas de carros que brotam por todos os lados na hora do rush. Procurou falar de amenidades com o motorista, que se mostrou simpático, mas sua cabeça continuava latejando. O ar pesado de monóxido de carbono atravessava as frestas do vidro, misturado-se ao ar- condicionado, e o som estridente de uma rádio de notícias só faziam com que seu mal estar aumentasse. Arrependeu-se de não ter comprado, também, um dramin. Talvez um plasil funcionasse melhor naquele caso, pensou.
- Está se sentindo bem, doutor?
Foi surpreendido pela pergunta do motorista. Acabou relatando seu mal estar; suas dores de cabeça e problemas na coluna.
O motorista exibiu seus dentes irregulares embaixo do espesso bigode. Satisfeito e orgulhoso, abriu o porta-luvas, revelando um arsenal de comprimidos e xaropes, de todos os tamanhos e cores.
E começaram a conversar, animadamente, sobre doenças. Tinham tanto em comum! Haviam passado pelas mesmas pequenas intervenções cirúrgicas e compartilhavam os mesmos medos de algo maior e mais sério. Sentiam, com freqüência, os mesmos sintomas aterrorizantes e corriam para os médicos em busca de mais exames que pudessem constatar alguma doença. E confessaram, quase aos sussurros, que ficavam um pouco frustados quando os médicos lhes diziam que não era nada. E riram.
A corrida transcorreu rápida diante de tamanha cumplicidade e entendimento. Nem se deu conta de que o táxi havia diminuído a velocidade e estava, agora, parado em frente ao seu prédio.
Suspirou. Pegou sua pasta para alcançar a carteira. Olhou para a portaria a poucos metros. Bateu no ombro do motorista e falou:
- Quer saber? Dá mais uma voltinha pelo bairro, amigo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Meditação

Descobri que não consigo meditar. Aliás, não consigo sequer relaxar para, então, dar início a qualquer ato de meditação.
Desde cedo percebi que pertencia ao grupo das 'nervosinhas-irritadinhas-que-querem-tudo-do-jeito-delas'. Com o passar dos anos a coisa só piorou. Hoje se uma vendedora demora mais de 2 minutos para me dar atenção em uma loja, dou meia-volta e me retiro de cara feia.
No trânsito, então, nem se fala. Diversas vezes me vi tal qual o personagem do Michael Douglas em 'Um Dia de Fúria'; pronta para arranjar um míssil e atirar no primeiro ônibus que me fechar!
Na tentativa de buscar uma melhor qualidade de vida; de conseguir, literalmente, criar um botão 'foda-se' que eu pudesse ligar a qualquer momento, busquei a Yoga (por favor não errem a pronúncia; o certo é yÔga). (Mais um parênteses: eu tenho uma conhecida, dessas que amam se mostrar entendidas em tudo, que resolveu fazer yoga quando engravidou. Achei legal e resolvi perguntar, animada, como eram as aulas de yÓga. Para quê? - Não é yÓga, é YÔga! - Ah, tá. Então vá se fOder, e não fUder!!!! - pensei. Desde então evitei falar com ela.)
Mas voltando ao assunto em questão, fui fazer a bendita aula. A professora estava vestida à la indiana, sabe? Calças largas, camiseta com o Ganesh (aquele deus que parece um elefante), descalça e cheia de pulseiras. Isso já me deixou cabreira, pois creio que a boa professora não precisa se 'fantasiar' de entendida, as aulas mostrarão. Mas, tudo bem. Começamos 'reverenciando o sol'. Por favor não me perguntem mais como é a posição, pois apaguei da minha mente. Logo em seguida ela pediu para fazermos 'aummmmmmmmm' de olhos fechados. Pronto. Já me deu vontade de ir embora. O que eu estava fazendo ali reverenciando o sol e fazendo 'aummmm' no meio da tarde com tanta coisa ainda para fazer durante o dia??? E ainda pagando para isso! - Calma - pensei - é para um bem maior.
Depois de várias posições quase eróticas (ainda bem que não havia homens na aula - ou pena, porque se fossem interessantes talvez eu me animasse em reverenciar o sol de uma maneira mais empinadinha), era chegada a hora da meditação. Luz baixa, som indiano chatão ao fundo e a voz da professora baixinha: 'esvaziem a mente...'
Juro por Ganesh que me deu vontade de rir. Não resisti e abri um dos olhos disfarçadamente para olhar à minha volta; aquele mar de mulheres deitadas em um colchonete mínimo, compenetradas... Será que eu era a única anormal? Será que só eu estava contando os minutos para sair dali e, finalmente, fazer algo de útil como comprar presunto para o lanche e buscar a colcha na lavanderia?
É óbvio que não mais retornei.
O fato é que desisti de tentar meditar. Desisti de tentar relaxar. Não sei que método seria minha salvação, pois nem quero entrar no tema acupuntura... (Já tentei. Sem comentários).
Talvez só mesmo um míssil. Alguém sabe onde eu consigo um?