- E aí, como foi?
Marina ouviu a pergunta, mas permaneceu em silêncio, ainda sob o efeito da novidade de sensações. Carol, que não conseguia se calar por um segundo, foi logo interrompendo sem esperar a resposta:
- Caraca, lembra quando eu perdi BV com o Rafa? Ele me babou toda. Foi horrível!
- Eca! - ouviu-se de todas, acompanhado de caretas retorcidas e seguido de risadas.
- Eu fiz uma listinha de todos os tipos de beijo que eu já experimentei. - Falou Luísa, sacudindo os cabelos longos com ar de experiente, ainda que apenas 1 ano mais velha do que as outras 4 meninas. - O João Pedro era babão também. A gente acabava de se beijar e eu tinha que limpar minha cara toda sem ele perceber pra não pegar mal.
Depois veio o Ricardo. Esse beijava direitinho, mas a língua dele parecia presa na boca. Ele quase não colocava ela pra fora. Eu que tinha que ficar catando a língua da criatura!
- É mesmo! É mesmo! - Exaltou-se Juliana. - Eu também beijei ele depois.
- Aí! Você sempre visou os restos da Luísa! - Provocou Carol diante das risadas de todas.
Marina fingia atenção.
- Nada a ver. - Retrucou Juliana. - Continua, Luísa.
- Tá. - Ajeitou o cabelo em um coque com a piranha que sempre trazia consigo e continuou:
- O Lucas era mais velho, cara. Eu jurava que ele ia arrasar no beijo. Mas o cara parecia um helicóptero. Ficava rodando a língua sem parar. Quase me deixou sem fôlego. A sorte dele é que ele é gato!
- Ô... Põe gato nisso! - Comentou Aline, que até então só havia se limitado a rir de tudo, corando suas bochechas sardentas.
- Continuando: depois veio o Renan. - Parou para fazer suspense - Não. O Renan foi muito esquisito! Eu classifiquei ele como lagarto ou cobra. Ainda estou decidindo o bicho que eu vou homenagear. Ele não rodava a língua como todo mundo. Ele simplesmente colocava a língua pra fora e pra dentro, pra fora e pra dentro. Uma hora a língua estava ali, na outra tinha sumido. Esquisitão.
Foi uma gargalhada geral. Carol chegou a deitar do chão de tanto rir e Aline ficou quase roxa. Só Marina permanecia calada.
- Gente, gente! - Gritou Juliana por cima do alvoroço que havia se instaurado - A Marina está ali quietinha e ainda não falou nada. Ela finalmente perdeu o BV. Fala logo. Como é que foi? O Pedro beija bem?
Marina endireitou-se, mexeu na franja, pigarreou.
- Foi bom. Acho que ele beija direitinho sim.
- Aê! Aleluia! Marina! Marina!
Já mais tarde. Sozinha em seu quarto. Marina deitou-se na cama e fechou os olhos. Tentou reconstruir cada passo daquele seu primeiro beijo.
Lembrou-se do nervosismo que sentira. Do aperto no estômago, uma espécie de dor-de-barriga... Dos olhos de Pedro fitando os seus e seu hálito quente se aproximando. Suas mãos suando frias e o coração batendo tão alto que ela teve medo de que ele pudesse ouvir.
Depois a boca úmida contra a sua e a indecisão que ela teve se devia abrir sua boca de imediato ou esperar que a língua dele lhe mostrasse a hora certa...
E ao final do beijo o sorriso meio sem-graça. O gritinho dos amigos dele à distância e ele jogando o cabelo para o lado, empinando-se como um macho vencedor na natureza.
Talvez daqui a alguns meses, ou até dias, ela pudesse relatar esse beijo de maneira mais fria, como haviam feito suas amigas. Talvez ela até experimentasse outros melhores e os classificasse, como fazia Luísa. Mas agora, naquele exato momento, ela só queria adormecer sob o brilho da lembrança dos olhos de Pedro e cobrir-se dos detalhes de seu primeiro beijo.