domingo, 21 de outubro de 2007

O Primeiro Beijo

- E aí, como foi?
Marina ouviu a pergunta, mas permaneceu em silêncio, ainda sob o efeito da novidade de sensações. Carol, que não conseguia se calar por um segundo, foi logo interrompendo sem esperar a resposta:
- Caraca, lembra quando eu perdi BV com o Rafa? Ele me babou toda. Foi horrível!
- Eca! - ouviu-se de todas, acompanhado de caretas retorcidas e seguido de risadas.
- Eu fiz uma listinha de todos os tipos de beijo que eu já experimentei. - Falou Luísa, sacudindo os cabelos longos com ar de experiente, ainda que apenas 1 ano mais velha do que as outras 4 meninas. - O João Pedro era babão também. A gente acabava de se beijar e eu tinha que limpar minha cara toda sem ele perceber pra não pegar mal.
Depois veio o Ricardo. Esse beijava direitinho, mas a língua dele parecia presa na boca. Ele quase não colocava ela pra fora. Eu que tinha que ficar catando a língua da criatura!
- É mesmo! É mesmo! - Exaltou-se Juliana. - Eu também beijei ele depois.
- Aí! Você sempre visou os restos da Luísa! - Provocou Carol diante das risadas de todas.
Marina fingia atenção.
- Nada a ver. - Retrucou Juliana. - Continua, Luísa.
- Tá. - Ajeitou o cabelo em um coque com a piranha que sempre trazia consigo e continuou:
- O Lucas era mais velho, cara. Eu jurava que ele ia arrasar no beijo. Mas o cara parecia um helicóptero. Ficava rodando a língua sem parar. Quase me deixou sem fôlego. A sorte dele é que ele é gato!
- Ô... Põe gato nisso! - Comentou Aline, que até então só havia se limitado a rir de tudo, corando suas bochechas sardentas.
- Continuando: depois veio o Renan. - Parou para fazer suspense - Não. O Renan foi muito esquisito! Eu classifiquei ele como lagarto ou cobra. Ainda estou decidindo o bicho que eu vou homenagear. Ele não rodava a língua como todo mundo. Ele simplesmente colocava a língua pra fora e pra dentro, pra fora e pra dentro. Uma hora a língua estava ali, na outra tinha sumido. Esquisitão.
Foi uma gargalhada geral. Carol chegou a deitar do chão de tanto rir e Aline ficou quase roxa. Só Marina permanecia calada.
- Gente, gente! - Gritou Juliana por cima do alvoroço que havia se instaurado - A Marina está ali quietinha e ainda não falou nada. Ela finalmente perdeu o BV. Fala logo. Como é que foi? O Pedro beija bem?
Marina endireitou-se, mexeu na franja, pigarreou.
- Foi bom. Acho que ele beija direitinho sim.
- Aê! Aleluia! Marina! Marina!
Já mais tarde. Sozinha em seu quarto. Marina deitou-se na cama e fechou os olhos. Tentou reconstruir cada passo daquele seu primeiro beijo.
Lembrou-se do nervosismo que sentira. Do aperto no estômago, uma espécie de dor-de-barriga... Dos olhos de Pedro fitando os seus e seu hálito quente se aproximando. Suas mãos suando frias e o coração batendo tão alto que ela teve medo de que ele pudesse ouvir.
Depois a boca úmida contra a sua e a indecisão que ela teve se devia abrir sua boca de imediato ou esperar que a língua dele lhe mostrasse a hora certa...
E ao final do beijo o sorriso meio sem-graça. O gritinho dos amigos dele à distância e ele jogando o cabelo para o lado, empinando-se como um macho vencedor na natureza.
Talvez daqui a alguns meses, ou até dias, ela pudesse relatar esse beijo de maneira mais fria, como haviam feito suas amigas. Talvez ela até experimentasse outros melhores e os classificasse, como fazia Luísa. Mas agora, naquele exato momento, ela só queria adormecer sob o brilho da lembrança dos olhos de Pedro e cobrir-se dos detalhes de seu primeiro beijo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Mulher Prevenida

Ontem, no trânsito, a caminho de casa, visualizei uma cena que me fez lembrar de uma amiga de Tica e Teca.

Tica e Teca, como vocês sabem, são muito amigas entre si, e têm amigas, como definir... estranhas!

Vani (vamos chamá-la assim), por exemplo, é moça muito prevenida. E perspicaz.

Tanto que resolveu o problema de estar no trânsito e subitamente ficar apertada para ir ao banheiro da seguinte maneira: agora só usa saias e carrega um personal penico no bagageiro. Se ficar apertada no meio de um engarrafamento, ela sai do carro, dirige-se ao bagageiro, de onde retira o personal penico, coloca-o no banco do motorista, senta, faz o que tem que fazer, retira o vasilhame e segue em frente.

Tal procedimento já a salvou em várias situações! É ou não é uma mulher previdente?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O hipocondríaco

Saiu do escritório e andou, apressadamente, em direção à esquina. Não sem antes entrar na farmácia e comprar mais uns comprimidos de tylenol. Sua dor de cabeça aumentava ao longo do dia, com tantos afazeres na repartição... Comprou, também, um antiinflamatório (sua coluna estava em frangalhos após tantas horas sobre o computador).
Acenou para o primeiro táxi que passava. Estava muito cansado e com o corpo dolorido para esperar pelo ônibus. Hoje ele iria se dar ao luxo de pagar um táxi até sua casa.
A viagem seguia seu curso normal. O veículo avançava alguns metros e parava, espremido entre as dezenas de carros que brotam por todos os lados na hora do rush. Procurou falar de amenidades com o motorista, que se mostrou simpático, mas sua cabeça continuava latejando. O ar pesado de monóxido de carbono atravessava as frestas do vidro, misturado-se ao ar- condicionado, e o som estridente de uma rádio de notícias só faziam com que seu mal estar aumentasse. Arrependeu-se de não ter comprado, também, um dramin. Talvez um plasil funcionasse melhor naquele caso, pensou.
- Está se sentindo bem, doutor?
Foi surpreendido pela pergunta do motorista. Acabou relatando seu mal estar; suas dores de cabeça e problemas na coluna.
O motorista exibiu seus dentes irregulares embaixo do espesso bigode. Satisfeito e orgulhoso, abriu o porta-luvas, revelando um arsenal de comprimidos e xaropes, de todos os tamanhos e cores.
E começaram a conversar, animadamente, sobre doenças. Tinham tanto em comum! Haviam passado pelas mesmas pequenas intervenções cirúrgicas e compartilhavam os mesmos medos de algo maior e mais sério. Sentiam, com freqüência, os mesmos sintomas aterrorizantes e corriam para os médicos em busca de mais exames que pudessem constatar alguma doença. E confessaram, quase aos sussurros, que ficavam um pouco frustados quando os médicos lhes diziam que não era nada. E riram.
A corrida transcorreu rápida diante de tamanha cumplicidade e entendimento. Nem se deu conta de que o táxi havia diminuído a velocidade e estava, agora, parado em frente ao seu prédio.
Suspirou. Pegou sua pasta para alcançar a carteira. Olhou para a portaria a poucos metros. Bateu no ombro do motorista e falou:
- Quer saber? Dá mais uma voltinha pelo bairro, amigo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Meditação

Descobri que não consigo meditar. Aliás, não consigo sequer relaxar para, então, dar início a qualquer ato de meditação.
Desde cedo percebi que pertencia ao grupo das 'nervosinhas-irritadinhas-que-querem-tudo-do-jeito-delas'. Com o passar dos anos a coisa só piorou. Hoje se uma vendedora demora mais de 2 minutos para me dar atenção em uma loja, dou meia-volta e me retiro de cara feia.
No trânsito, então, nem se fala. Diversas vezes me vi tal qual o personagem do Michael Douglas em 'Um Dia de Fúria'; pronta para arranjar um míssil e atirar no primeiro ônibus que me fechar!
Na tentativa de buscar uma melhor qualidade de vida; de conseguir, literalmente, criar um botão 'foda-se' que eu pudesse ligar a qualquer momento, busquei a Yoga (por favor não errem a pronúncia; o certo é yÔga). (Mais um parênteses: eu tenho uma conhecida, dessas que amam se mostrar entendidas em tudo, que resolveu fazer yoga quando engravidou. Achei legal e resolvi perguntar, animada, como eram as aulas de yÓga. Para quê? - Não é yÓga, é YÔga! - Ah, tá. Então vá se fOder, e não fUder!!!! - pensei. Desde então evitei falar com ela.)
Mas voltando ao assunto em questão, fui fazer a bendita aula. A professora estava vestida à la indiana, sabe? Calças largas, camiseta com o Ganesh (aquele deus que parece um elefante), descalça e cheia de pulseiras. Isso já me deixou cabreira, pois creio que a boa professora não precisa se 'fantasiar' de entendida, as aulas mostrarão. Mas, tudo bem. Começamos 'reverenciando o sol'. Por favor não me perguntem mais como é a posição, pois apaguei da minha mente. Logo em seguida ela pediu para fazermos 'aummmmmmmmm' de olhos fechados. Pronto. Já me deu vontade de ir embora. O que eu estava fazendo ali reverenciando o sol e fazendo 'aummmm' no meio da tarde com tanta coisa ainda para fazer durante o dia??? E ainda pagando para isso! - Calma - pensei - é para um bem maior.
Depois de várias posições quase eróticas (ainda bem que não havia homens na aula - ou pena, porque se fossem interessantes talvez eu me animasse em reverenciar o sol de uma maneira mais empinadinha), era chegada a hora da meditação. Luz baixa, som indiano chatão ao fundo e a voz da professora baixinha: 'esvaziem a mente...'
Juro por Ganesh que me deu vontade de rir. Não resisti e abri um dos olhos disfarçadamente para olhar à minha volta; aquele mar de mulheres deitadas em um colchonete mínimo, compenetradas... Será que eu era a única anormal? Será que só eu estava contando os minutos para sair dali e, finalmente, fazer algo de útil como comprar presunto para o lanche e buscar a colcha na lavanderia?
É óbvio que não mais retornei.
O fato é que desisti de tentar meditar. Desisti de tentar relaxar. Não sei que método seria minha salvação, pois nem quero entrar no tema acupuntura... (Já tentei. Sem comentários).
Talvez só mesmo um míssil. Alguém sabe onde eu consigo um?

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Nomes

Dando sequência aos trabalhos iniciados pela querida amiga Tica, devo, em primeiro lugar, subscrever integralmente as suas palavras quanto à escolha de nomes. Os homens, realmente, deveriam ser proibidos de se imiscuir em tais assuntos. Aliás, deve ser notado que eles, em geral, se aproveitam de um momento mágico na vida da mulher (em que ela está providencialmente impossibilitada de sair do hospital) para se dirigirem ao cartório mais próximo e cometerem atrocidades que marcarão a vida de seus pimpolhos para toda a eternidade.

Agora mesmo fiquei sabendo de uma criatura que têm os irmãos Cristina, Cláudio e Carlos (normais!!) e o pai, num momento de delírio, colocou o nome da menina de Ciomara!
Sintam só o drama da garota... Quando todos os nomes dos irmãos são estranhos, ainda se pode contar com a solidariedade da família. Agora, ser o único agraciado com um nome resultante de um delírio esquizóide do pai, é muita sacanagem!!!

Conheço uma mulher que sempre sonhou, desde a infância, em ter uma filha de nome Andréa. O marido concordou com a idéia. Mas, fraco das idéias, chegou ao cartório, tinha uma revista de nome Cláudia na sala de espera (devia ser lançamento na época, é uma história antiga), o marido achou o nome tão-mas-tão-lindo que não resistiu à tentação e colocou o nome da filha de Cláudia.

Outra mãe escolheu para a filha o singelo nome de Lúcia. O pai saiu de casa em direção ao cartório, parou no caminho para tomar umas cachaças, e registrou a menina com o nome de Zenona!!!

Assim, proponho uma ampla campanha para que os cartórios sejam obrigados a se negar a registrar crianças sem autorização expressa da mãe, confirmando que o seu rebento deve carregar aquele nome para sempre. Melhor, um serviço de Certidão de Nascimento delivery, em que, nascida a criança, uma funcionária qualificada (submetida a rigoroso treinamento e periódicos testes de bom gosto) vai até a mãe, com um livro de significados de nomes, e efetua o registro do nome escolhido. E, se o nome escolhido não for, digamos, propriamente indicado para um exemplar da espécie humana, faz as adaptações necessárias (por exemplo, Dayanni seria transformado em Diana, Raphaelly em Rafaela, etc.).

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Então tá

Aqui estou.
Quero dedicar meu primeiro post à minha grande amiga e companheira MM, doravante referida como Teca. Talvez a correlação pejorativa com o cérebro feminino não agrade, nem faça rir. Portanto, deixo-a à vontade para alterar seu nickname (e o meu) se assim lhe convier. Até porque, pensando bem, o nick que me foi reservado por mim mesma pode gerar gracinhas tais como ti-Tica.
Pronto. Já me arrependi dos nomes escolhidos.
Escolher nomes é sempre muito difícil. Lembro-me quando criança de ficar horas fazendo listas com nomes dos meus futuros filhos e nenhum deles vingou. Aliás, vai aqui uma dica para quem ainda não casou: pergunte bem ao seu namorado, noivo ou encosto sobre suas pretenções em relação ao preenchimento da certidão de nascimento do futuro rebento.
Quando se namora um Eustáquio, por exemplo, no auge da paixão, podemos até prometer colocar o nome do varão de Eustáquio Júnior. Uma mordidinha na orelha aqui, uma beliscadinha na barriga ali e já criamos apelidinhos do tipo "Taquinho". Mas na hora do vamos ver, duvido você ter coragem de infligir um castigo eterno deste ao seu próprio filho! Depois de meses de azia, falta de posição ao deitar e aturando os roncos do Eustáquio no seu ouvido (que, diga-se de passagem, é a única coisa que não está inchada), você vai querer maldizer todos os Eustáquios do mundo. - "Se é que existe alguma outra mãe louca o suficiente de colocar um nome HOR-RO-RO-SO destes em outra criança. Só a doida da sua mãe mesmo, que veio lá da roça." - Você irá esbravejar.
Até hoje não me conformo com aqueles maridos muito participativos. Não me levem a mal, mas o homem não deveria dar palpites em relação a nomes. A mulher sim, sonha com isso desde pequena. Certa feita uma amiga minha namorou um sujeito com sobrenome Pierre. Ah... Pierre... Ela suspirava pelo sobrenome, pois o sujeito em si estava mais para Taboão da Serra do que Paris. Paloma Pierre, escrevia. Patrícia Pierre, não... No final das contas acabou casando com um Sousa (!) Aí, fazer o quê? Sônia Sousa??? Horrível! Acabou dando à luz a um Rodrigo.