quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O hipocondríaco

Saiu do escritório e andou, apressadamente, em direção à esquina. Não sem antes entrar na farmácia e comprar mais uns comprimidos de tylenol. Sua dor de cabeça aumentava ao longo do dia, com tantos afazeres na repartição... Comprou, também, um antiinflamatório (sua coluna estava em frangalhos após tantas horas sobre o computador).
Acenou para o primeiro táxi que passava. Estava muito cansado e com o corpo dolorido para esperar pelo ônibus. Hoje ele iria se dar ao luxo de pagar um táxi até sua casa.
A viagem seguia seu curso normal. O veículo avançava alguns metros e parava, espremido entre as dezenas de carros que brotam por todos os lados na hora do rush. Procurou falar de amenidades com o motorista, que se mostrou simpático, mas sua cabeça continuava latejando. O ar pesado de monóxido de carbono atravessava as frestas do vidro, misturado-se ao ar- condicionado, e o som estridente de uma rádio de notícias só faziam com que seu mal estar aumentasse. Arrependeu-se de não ter comprado, também, um dramin. Talvez um plasil funcionasse melhor naquele caso, pensou.
- Está se sentindo bem, doutor?
Foi surpreendido pela pergunta do motorista. Acabou relatando seu mal estar; suas dores de cabeça e problemas na coluna.
O motorista exibiu seus dentes irregulares embaixo do espesso bigode. Satisfeito e orgulhoso, abriu o porta-luvas, revelando um arsenal de comprimidos e xaropes, de todos os tamanhos e cores.
E começaram a conversar, animadamente, sobre doenças. Tinham tanto em comum! Haviam passado pelas mesmas pequenas intervenções cirúrgicas e compartilhavam os mesmos medos de algo maior e mais sério. Sentiam, com freqüência, os mesmos sintomas aterrorizantes e corriam para os médicos em busca de mais exames que pudessem constatar alguma doença. E confessaram, quase aos sussurros, que ficavam um pouco frustados quando os médicos lhes diziam que não era nada. E riram.
A corrida transcorreu rápida diante de tamanha cumplicidade e entendimento. Nem se deu conta de que o táxi havia diminuído a velocidade e estava, agora, parado em frente ao seu prédio.
Suspirou. Pegou sua pasta para alcançar a carteira. Olhou para a portaria a poucos metros. Bateu no ombro do motorista e falou:
- Quer saber? Dá mais uma voltinha pelo bairro, amigo.

3 comentários:

Sara disse...

Cara, sério, eu AMEI esse texto!
Novas amizades surgindo pelo ar, tão lindo. HAHA.
Quero dizer, ele encontrou um semelhante!
Mas, hm, depois me fala o que significa hipocondríaco. HAHA.
Sério, ficou legal pra caramba. Parece até aquelas crônicas do livro 'comédias da vida privada', ou então 'vida da comédia privada', algo assim. HAHA.
Ou seja, você pode escrever um livro.
Quanto ao sorvete Galak, quando eu finalmente acabei com ele, minha mãe aparece com outro pote.
E palhas italianas.
Ou seja, olá Sara-Sou-Obesa-E-Daí!
Mas, deixa, qual é a graça da vida sem uns potes de sorvete Galak?
E ser obesa nem é tão ruim assim, quero dizer, que nem eles falam em Hairspray: "quem que prefere uma saladinha a um prato bem servido?"
Hm, algo assim.
Mas eu concordo!
E, poxa, a garota gorda do filme terminou com o Zac. Isso diz muita coisa.

Caio Xavier disse...

E ELE FICAVA CHATIADO QUANDO O MEDICO DIZIA Q NÃO ERA NADA...MELDELS!

Anônimo disse...

Amiga Tica, nem imagino quem seria o hipocondríaco em questão! rsrs

Agora, faz favor, desconvida essa tal de marcia-mm, pra ela nunca mais vir dar pitaco aqui no nosso brógui!